quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Relieve



 

O braço que nos separa é a angústia. Revolve-me por dentro, transtorna-me as entranhas. Tenho dores, dói-me o corpo, a cabeça, a barriga. Cabe-te arrancar esta angústia de mim, a ferros, com as mãos, esventra-me se for preciso, no fundo, só preciso de uma palavra.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

As I am

Encerro neste espaço todas as palavras que te quero dizer mas não digo porque te parecem lamechas. Vou debitando letras e pontos,juntando em frases todos os sonhos que tenho contigo e nem sequer sabes que existo aqui. Odeio esse olhar patético quando te leio Neruda que tanto amo, quase tanto como a ti, o ar jocoso com que repetes a última frase de qualquer desses poemas. Odeio a ironia nos teus gestos quando me percebes a inteligência em qualquer conversa banal, é sentir que no fundo não me conheces porque se conhecesses não me zombarias assim. Deambulamos juntos nos sonhos mas acabamos por divergir no caminho que a eles nos poderia levar, é nesses momentos que ponho em causa a nossa existência e a simultaneidade do nosso amor, evidentemente há uma falta de constância em nós dois e permito-me perguntar onde isso nos levará. Tenho a certeza que nunca me conhecerás de verdade porque quando me dou a conhecer tu finges que não ouves, surdez da alma que me trespassa. Tudo passa, menos o presente que desejo como futuro, tudo passa, menos esta vontade de ficar, tudo passa, menos este amor absurdo e sem sentido que tenho por ti, tudo passa, um dia também hei-de passar.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Chocolat

 Na verdade não sei o que gosto mais em ti, se esses arrufos de amor quando me sentes a falta, se esses traços vincados de pirralha mimada com todo o saber na ponta da língua. Para ti não há meio termo, ora me abraças sofregamente como se nada mais houvesse que não eu, ora me gritas o que não gostas com as essas mãos pequenas mas atrevidas no ar ou na cintura. Personalidade enorme num corpo pequeno, vincada como se uma vida inteira se tratasse, rebelde e insolente mas de sorriso envergonhado quando percebe o que sente. Admito agora que para ti há um meio termo, quando me pedes o aconchego da barriga na hora de dormir  e me dizes invariavelmente "não é frio, não é quente, é morninho com chocolate!" e eu te respondo sorridente "como o meu amor por ti!"

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Love

E hoje, enquanto te adormeço, torço por ti, reitero todos os meus desejos de que sigas feliz como só tu no teu pequeno mundo consegues ser. Sinto-me tão pequena enquanto te desenho os lábios perfeitos e não me resigno a esse Deus em quem não acredito e ao qual não rezo. Desisti há muito de tentar perceber porquê a ti e não a mim, apenas razões estúpidas poderiam ser uma razão. Mas não desisto de ti nunca, com todas as tuas maleitas e imperfeições que fazem de ti o ser mais perfeito do meu mundo. Curo-te as feridas, encho-te de colo e de mimo e embalo-te no meu regaço e amo-te cada vez mais e de cada vez que me enches de dores e de cada vez que te salvo a vida. Tenho um buraco no peito, sinto-o fechar só de olhar o sorriso que brilha no teu rosto enquanto o sono te toma e me dizes "gosto tanto de ti". Sabes que podes fechar os olhos que estarei sempre ali para afugentar todos os teus fantasmas e colorir os teus monstros, sei que acreditas em mim, palavra por palavra, em todas as promessas que te juro e que fechas os olhos e que adormeces sempre feliz.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Give back


 

Carrega a tua sombra como se de um espelho se tratasse, não para te veres, para veres os outros. Quando feres, sente o espinho. Quando usas, sente-te usado e quando amas, sente-te amado. Ao meio-dia sentes-te sozinho e na noite isolado mas carrega a tua sombra como se de espelho se tratasse.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Deception

Ás vezes, de uma forma doce sentes o amargo da rejeição, partilhas o que sentes porque te sentes numa clausura sem fronteira confinada a algo que te deixa espaço demais. Tens de dizer o que sentes, o coração sai-te pela boca mas tropeças nas palavras porque desafias a estabilidade do pouco que nem é teu. Queres tanto isso, queres tanto o pouco, vives a vida a precisar de alguém muito mais do que esse alguém precisa de ti, deixas que te defina os limites quando os limites são teus. 
Só tu sabes onde acabas.
Acabas por dizer, por medo ou por coragem mas acabas a dizer que se te deixasse, ai se te deixasse, sentir-te-ias pequena ao pé desse alguém, de tão grande que é. Queres dizer "amo-te" e aguardá-lo de volta mas dizes apenas "gosto de ti" porque não te custa dizer amo-te, custa que te devolva "não te amo" ou "nem sequer gosto de ti".
Dizes que se não te amar não faz mal, assim não tropeças mais, assim continuas caminho, arrepias atalhos à procura de outro ser ou apenas de seres. Assim já podes adormecer, desprovida de sono mas cheia de sonhos. Assim páras de imaginar, assim páras para adormecer, contudo, para adormeceres lambes as lágrimas da decepção. 
Esqueceste que só tu sabes onde acabas.

Rain



Odeio o vento que me tolda o pensamento, leva-me as palavras, as doces pelo menos... Prefiro a chuva, nela me aninho e animo, salto nas poças e lambo os pingos, sacudo os cabelos enroscados de água. Visto-me de calças velhas, camisola amarrotada e livro-me dos sapatos, aguardo debaixo de uma nuvem negra, espero a chuva que desaba e me arrebata, nela me encontro e me encho de palavras e coragem, de punhos erguidos grito tudo o que sinto e lavo a alma e o pensamento. A amargura arrasta-se nos riachos efémeros que apenas persistem enquanto chover, tal como as minhas palavras perdurarão enquanto a chuva cair ou o silêncio as corroer.