segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Glass

Constato que tenho saudades da solidão, do tempo em que era mais feliz sozinha e me sentia preenchida. Desconheço e detesto o amargo em que te tornaste, não sei se me culpo por tantas vezes dividir contigo pensamentos, esperando avidamente um qualquer retorno, o que fosse desde que não fosse o habitual silêncio. Não sei se pela insistência ou se por circunstâncias mal curadas da vida, jorras amiúde razões, quase sempre mal formadas onde antes só habitavam pensamentos desirmanados ou um total vazio, desorientas-me os sentidos, replico agora com silêncio em jeito de desafio.
Feita está a cama, lençóis enrolados, nela terei de me deitar e permanecer enquanto não encontrar a resposta que te cale de vez ou te amanse o coração. Nem sei porque a fiz, o sono ou a ausência dele não me matava, morria de sede mas não de sono. Bebera eu um copo de água e tivesse permanecido no silêncio que me aquietava, agora não estaria a despoletar uma tempestade. Sou o copo.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fuck you

O que vai ser de nós quando nos abandonarmos de novo? Tu definharás durante meses naquele teu abrigo, perderás a cor, o sal, a vida mas retornarás mais arrogante assim que desistires de ter pena de ti mesmo. Voltarás mais são, sem nada a perder, disposto a perder tudo. Eu serei forte e resoluta mas todas as cicatrizes que tenho arder-me-ão ainda mais intensamente, não mais do que a dor que me assola agora.
E deles, o que será? Quando perceberem que os silêncios não eram sinal de paz, que estou demasiado desiludida para discutir, que os sorrisos são partilhados a três e que mais uma vez desisti, que nem por eles continuo este jogo onde acabo sempre a perder.
 
Fui tomada de inércia, não me apetece lutar por alguém que se tornou metade do que era e da metade que ficou só vislumbro as coisas de que nunca gostei mas que esmiuçadas no resto quase passavam imperceptíveis. Fiquei com a parte que não conta, a outra onde és doce, cúmplice, altruísta fica fechada do lado errado da porta.
Talvez um dia sinta falta desta solidão, desta tristeza, os silêncios por vezes podem ser alimento mas hoje não, por hoje chega, não me tenho assim tão pouca.

terça-feira, 15 de março de 2016

Time lapse

Ontem jogámos Uno a quatro, apesar de doente o pequenito estava feliz, eu também. Ontem jogámos Uno com as regras todas, desregrados no sofá com uma manta no colo e um livro a fazer de tabuleiro. Ontem fomos uno, partilhámos gargalhadas e roubei propositadamente  tempo ao tempo de dormir.
Hoje passou na rádio uma música de um tempo que não me queria lembrar, sem querer rebusquei memórias tiranas e percebi que estou demasiado perto dessas memórias de novo. Hoje jogamos Uno de novo, espero.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Regrets?

Fiquei com os pés no chão, desci das nuvens e fiquei com os pés no chão. Partilhei todas as palavras e foste construindo chão. Fiquei com os pés no chão. Entreguei-te os pensamentos quase sem notar e acrescentaste mosaicos. Fiquei com os pés no chão. Pediste-me o corpo, não o quis entregar, suplicaste, juraste juras e mais juras, aumentaste o caminho e fiquei com os pés no chão. 
Deitei-me no chão. Assumiste que seria assim para sempre, pediste-me que assim fosse, eu era o céu, tu o meu chão. Acertámos pele com pele, olhos nos olhos e ficámos com os pés no chão.
Desprezámos regras, gozámos o amor na perfeição, fizemos dele amor-perfeito. 
Tiveste medo. Tiraste-me o tapete, fugiu-me o chão, segui caminho, tiveste medo. Quiseste voltar mas fiquei com os pés no chão, fui cruel, sacudi-te o cheiro, ficou-te o amor, ficará para sempre que o sei, que o disseste mas eu, tenho os pés no chão. As razões em que te abandonaste, consomem-te agora, nunca terás chão, segui caminho, subi às nuvens mas fiquei com os pés no chão.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Lost it

Consta-me que já não me amas. Não foi um passarinho que me disse, não foi uma língua afiada. São devaneios da minha mente, mais assertiva do que parece. Abandonas-me de corpo presente e alma ausente, quem fui para ti é passado se agora sou apenas embaraço ou constrangimento. Não te vou amar mais se o que sinto é desamor, um amor que se vai devagar, lentamente, que se escorre, que se vai cheio de pena e de penas. Pois não penarei mais, inspiro e bato em retirada, daqui não levo mais  nada, saio amena e resignada, doutros amores me valho para consolar esta alma destroçada.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Inner monster

Basta olhar-te mesmo quando te foge o olhar, peço-te que me olhes nos olhos tantas vezes e tu consegues. Basta olhar-te, peço-te os olhos que me afastam os monstros, são os teus olhos que me afastam os monstros. Basta olhar-te, afasto os teus monstros, desaparece o frio que me usurpa o estômago e rimos os dois. Basta um olhar e rimos até chorar, até doer a barriga e só com um olhar. 
A minha vida por esses olhos, é neles que me resgato.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Counterclockwise

Queria perguntar-te quando me deixaste, parece-me que não foi ontem, é coisa de muito tempo. Foi quando deixaste de me mentir ou antes disso. Pecas agora por omissão, que omitir é mais oportuno e fica quase sempre bem. Ficas quase sempre bem. Não padeces de mal de consciência, não perdes o sono, não definhas a culpa.
Perguntei-te quando me deixaste e afinal fui eu quem te abandonou, quem te omitiu daquilo que sou. Deixaste-me, já não sou a tua melhor amiga, não te ouço os segredos nem os devaneios, não te ouço, se não tens palavras para dizer, se não te consigo ouvir. Se não é a mim que te contas, não é a ti quem poderei ouvir.
Deixaste-me quando te pedi uma resposta, replicaste ecos, acedeste com uma pergunta. Continuo sem te ouvir, os meus silêncios ecoam-me na cabeça, já os teus não os consigo ouvir.
Deixaste-me há quanto tempo?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Gone



Retiro tudo o que disse, todas as juras que te fiz.  Retiro todo o amor que te tenho, retiro também o ódio que te sinto. Por ti, quero nada sentir, não te quero ter amor, quero desamor. Quero ficar longe de suposições, que dessas posso sempre duvidar, das suposições posso apenas duvidar. Quero parar de fingir que não percebo, fingir que acredito na veemência com que as desdizes, desculpas trapalhonas ou atrapalhadas, não deixam de ser suposições. Retiro tudo o que disse, retiro ilações de histórias mal contadas. Retiro tudo menos a verdade nos meus olhos, o que os meus olhos vêem,  são verdades absolutas. Portanto, retiro tudo o que te disse.


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Shelter

Andaram dois anos desde que nos reencontrei, indubitavelmente era o meu caminho, a estrada que queria seguir. Agora levito nos pensamentos e nem sei se fomos para a frente se para trás. Não sei qual é o teu lugar nesta história, já não conheço o personagem e duvido que saibas em que desfecho te queres encontrar.
 
Andaram dois anos, incorporo nos meus pensamentos que seguimos para o lado pois nem sei se fomos em frente ou se demos um passo atrás. Sei que hoje não estamos lado a lado mas também não estamos de costas, esgravato nos problemas e fico cada vez mais longe da solução. Não quero desistir disto, não assim, sem escolher uma estrada.

Andámos dois anos numa direcção qualquer e concluo que já não sabes gostar de mim, espero que haja uma poção mágica que nos salve, deixo em ti a solução. Ou me desprendes ou me abraças com força, sobrepõe-te apenas à vontade que te move numa direcção qualquer, preciso de um porto seguro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Prove me wrong

E é essa mania de estar certa em relação a tudo, complexo de superioridade ou apenas assertividade dos pensamentos. Não  sei explicar mas gosto de certezas, convicções, assevero que no que me diz respeito, tudo sei.
Abomino a mentira, a falta de lealdade, a hipocrisia e decepciono-me constantemente, no entanto, a cada pessoa que passa na minha vida tomo-lhe sempre o melhor, acredito que todas as pessoas são boas.
Sou pela segunda oportunidade, creio que ninguém é infalível, o erro comete-se por vezes inadvertidamente, outras nem por isso mas tenho a capacidade de perdoar se a justificação for plausível.
Mas reitero, estou convicta de que tenho razão quando amo, quando acredito, quando falo e até quando me calo. Neste momento, só queria estar enganada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Analepse

Havia tanto tempo, tanto que pensava já ter esquecido o tempo em que amava o meu amante, tanto que deixaste de me entrar na cabeça e nos sonhos e comecei a ter sonhos plausíveis de serem realidade, tanto que já não sentia nada, nem amor, nem ódio, sentia com lucidez e sem remorso. 

Havia tanto tempo que deixei de ter saudades, deixei de me afundar, pisei chão seguro e segui em linha recta, deixei ilusões e desilusões para trás, havia tanto tempo que me sentia feliz outra vez.

Havia tanto tempo e um vislumbre de ti atirou-me para trás no tempo, não foi saudade o que senti, nem sei o que foi, só sei que me entrou no corpo e na cabeça, foi um formigueiro, um devaneio, vontade de gritar, sussurrar o quanto te odeio, um assomo do que fui enquanto fui de ti.

E tu ali a olhar,  tremeste, trespassaste-me e nem hesitaste, sei bem que quiseste mendigar o meu afecto, pegar-me na mão, dar-me um safanão mas não para me acordar, somente para fazer mossa, para agudizar a dor que havia tanto tempo deixei de sentir. Guardo-te igual, cheio de amor doentio mas cobarde e não se ama a medo, sei que se cair tu não voltas atrás para me levantar, assim, fiz que não te vi para não me lembrar de ti, nem desta dor que por momentos voltou e havia tanto tempo que o tempo enterrou...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Home


Ainda aqui estou, não sei bem o que espero, tenho este hábito estranho de esperar mesmo com a certeza de nada de novo. 
Ainda aqui estou, mesmo depois da mentira, mentira atrás de mentira, eu odeio mentiras, nada de novo, não sei porque ainda aqui estou.
Ainda aqui estou, longe de mim, quase tão longe de mim quanto de ti, na verdade nem te quero por perto, não quando não há nada de novo que não seja uma mentira mas por enquanto ainda aqui estou.
Ainda aqui estou, vou continuar por aqui até que entendas o quanto estou longe de ti, de mim, de nós, até que entendas que odeio mentiras e que pares de as contar, até que aconteça algo de novo ou me canse de esperar. 
Ainda aqui estou, de corpo porque a alma já partiu há tempo demais mas o corpo esse teima em permanecer.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Relieve



 

O braço que nos separa é a angústia. Revolve-me por dentro, transtorna-me as entranhas. Tenho dores, dói-me o corpo, a cabeça, a barriga. Cabe-te arrancar esta angústia de mim, a ferros, com as mãos, esventra-me se for preciso, no fundo, só preciso de uma palavra.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

As I am

Encerro neste espaço todas as palavras que te quero dizer mas não digo porque te parecem lamechas. Vou debitando letras e pontos,juntando em frases todos os sonhos que tenho contigo e nem sequer sabes que existo aqui. Odeio esse olhar patético quando te leio Neruda que tanto amo, quase tanto como a ti, o ar jocoso com que repetes a última frase de qualquer desses poemas. Odeio a ironia nos teus gestos quando me percebes a inteligência em qualquer conversa banal, é sentir que no fundo não me conheces porque se conhecesses não me zombarias assim. Deambulamos juntos nos sonhos mas acabamos por divergir no caminho que a eles nos poderia levar, é nesses momentos que ponho em causa a nossa existência e a simultaneidade do nosso amor, evidentemente há uma falta de constância em nós dois e permito-me perguntar onde isso nos levará. Tenho a certeza que nunca me conhecerás de verdade porque quando me dou a conhecer tu finges que não ouves, surdez da alma que me trespassa. Tudo passa, menos o presente que desejo como futuro, tudo passa, menos esta vontade de ficar, tudo passa, menos este amor absurdo e sem sentido que tenho por ti, tudo passa, um dia também hei-de passar.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Chocolat

 Na verdade não sei o que gosto mais em ti, se esses arrufos de amor quando me sentes a falta, se esses traços vincados de pirralha mimada com todo o saber na ponta da língua. Para ti não há meio termo, ora me abraças sofregamente como se nada mais houvesse que não eu, ora me gritas o que não gostas com as essas mãos pequenas mas atrevidas no ar ou na cintura. Personalidade enorme num corpo pequeno, vincada como se uma vida inteira se tratasse, rebelde e insolente mas de sorriso envergonhado quando percebe o que sente. Admito agora que para ti há um meio termo, quando me pedes o aconchego da barriga na hora de dormir  e me dizes invariavelmente "não é frio, não é quente, é morninho com chocolate!" e eu te respondo sorridente "como o meu amor por ti!"

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Love

E hoje, enquanto te adormeço, torço por ti, reitero todos os meus desejos de que sigas feliz como só tu no teu pequeno mundo consegues ser. Sinto-me tão pequena enquanto te desenho os lábios perfeitos e não me resigno a esse Deus em quem não acredito e ao qual não rezo. Desisti há muito de tentar perceber porquê a ti e não a mim, apenas razões estúpidas poderiam ser uma razão. Mas não desisto de ti nunca, com todas as tuas maleitas e imperfeições que fazem de ti o ser mais perfeito do meu mundo. Curo-te as feridas, encho-te de colo e de mimo e embalo-te no meu regaço e amo-te cada vez mais e de cada vez que me enches de dores e de cada vez que te salvo a vida. Tenho um buraco no peito, sinto-o fechar só de olhar o sorriso que brilha no teu rosto enquanto o sono te toma e me dizes "gosto tanto de ti". Sabes que podes fechar os olhos que estarei sempre ali para afugentar todos os teus fantasmas e colorir os teus monstros, sei que acreditas em mim, palavra por palavra, em todas as promessas que te juro e que fechas os olhos e que adormeces sempre feliz.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Give back


 

Carrega a tua sombra como se de um espelho se tratasse, não para te veres, para veres os outros. Quando feres, sente o espinho. Quando usas, sente-te usado e quando amas, sente-te amado. Ao meio-dia sentes-te sozinho e na noite isolado mas carrega a tua sombra como se de espelho se tratasse.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Deception

Ás vezes, de uma forma doce sentes o amargo da rejeição, partilhas o que sentes porque te sentes numa clausura sem fronteira confinada a algo que te deixa espaço demais. Tens de dizer o que sentes, o coração sai-te pela boca mas tropeças nas palavras porque desafias a estabilidade do pouco que nem é teu. Queres tanto isso, queres tanto o pouco, vives a vida a precisar de alguém muito mais do que esse alguém precisa de ti, deixas que te defina os limites quando os limites são teus. 
Só tu sabes onde acabas.
Acabas por dizer, por medo ou por coragem mas acabas a dizer que se te deixasse, ai se te deixasse, sentir-te-ias pequena ao pé desse alguém, de tão grande que é. Queres dizer "amo-te" e aguardá-lo de volta mas dizes apenas "gosto de ti" porque não te custa dizer amo-te, custa que te devolva "não te amo" ou "nem sequer gosto de ti".
Dizes que se não te amar não faz mal, assim não tropeças mais, assim continuas caminho, arrepias atalhos à procura de outro ser ou apenas de seres. Assim já podes adormecer, desprovida de sono mas cheia de sonhos. Assim páras de imaginar, assim páras para adormecer, contudo, para adormeceres lambes as lágrimas da decepção. 
Esqueceste que só tu sabes onde acabas.

Rain



Odeio o vento que me tolda o pensamento, leva-me as palavras, as doces pelo menos... Prefiro a chuva, nela me aninho e animo, salto nas poças e lambo os pingos, sacudo os cabelos enroscados de água. Visto-me de calças velhas, camisola amarrotada e livro-me dos sapatos, aguardo debaixo de uma nuvem negra, espero a chuva que desaba e me arrebata, nela me encontro e me encho de palavras e coragem, de punhos erguidos grito tudo o que sinto e lavo a alma e o pensamento. A amargura arrasta-se nos riachos efémeros que apenas persistem enquanto chover, tal como as minhas palavras perdurarão enquanto a chuva cair ou o silêncio as corroer.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Existence

 


Hoje o problema não é agir, é interagir.
Hoje o problema não é existir, é coexistir.
Hoje o problema não é estar, é permanecer.
Hoje o problema não é viver, é persistir.
Hoje desaparecia, se pudesse desaparecia.